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Blog EntrySep 15, '07 12:27 PM
for everyone

Diante da lei está postado um guarda. Até ele se chega um homem do campo que lhe pede que o deixe entrar na lei. Mas o sentinela lhe diz que nesse momento não é permitido entrar. O homem reflete e depois pergunta se mais tarde lhe será permitido entrar. "É possível", diz o guarda "mas agora não". A grande porta que dá para a lei está aberta de par em par como sempre, e o guarda se põe de lado; então o homem, inclinando-se para diante, olha para o interior através da porta. Quando o guarda percebe isso desata a rir e diz: "Se tanto te atrai entrar procura fazê-lo não obstante a minha proibição. Mas guarda bem isto: eu sou poderoso e contudo não sou mais do que o guarda mais inferior; em cada uma das salas existem outros sentinelas, um mais poderoso do que o outro. Eu não posso suportar já sequer o olhar do terceiro". O camponês não esperava tais dificuldades; parece-lhe que a lei tem de ser acessível sempre a todos, mas agora que examina com maior atenção ao guarda, envolto em seu abrigo de peles, que tem grande nariz pontiagudo e barba longa, delgada e negra à moda dos tártaros, decide que é melhor esperar até que lhe dêem permissão para entrar. O guarda dá-lhe então um escabelo e o faz sentar-se a um lado, frente à porta. Ali passa o homem, sentado, dias e anos. Faz infinitas tentativas para entrar na lei e cansa o sentinela com suas súplicas. O sentinela às vezes o submete a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe por sua pátria e por muitas outras coisas, mas no fundo não lhe interessam especialmente as respostas. Pergunta como o faria um grande senhor; e sempre termina por manifestar-lhe que ainda não pode entrar. O homem, que para realizar aquela viagem teve de se abastecer de muitas coisas, emprega tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Este aceita tudo, mas diz: "Aceito-o para que não julgues que te descuides de alguma coisa". Durante muitos anos aquele homem não afasta os seus olhos do sentinela. Esquece-se dos outros sentinelas e chega a parecer-lhe que este primeiro é o único obstáculo que lhe impede entrar na lei. Nos primeiros anos maldiz a gritos sua funesta sorte, mas depois, quando se torna velho, limita-se a grunhir entre dentes. E como nos longos anos que passou estudando ao sentinela chega a conhecer também as pulgas do seu abrigo de pele, tornado outra vez à infância, roga até a essas pulgas para que o auxiliem a quebrar a resistência do guarda. Por fim vê que a luz que seus olhos percebem é mais fraca e não consegue distinguir se realmente se fez noite ao redor dele ou se simplesmente são os olhos que o enganam. Mas agora, em meio às trevas, percebe um raio de luz inextinguível através da porta. Resta-lhe pouca vida. Antes de morrer concentram-se em sua mente todas as lembranças e pensamentos daquele tempo em uma pergunta que até esse momento não tinha ainda formulado ao sentinela. Como seu corpo já rígido não se pode mover, faz um sinal ao guarda para que se aproxime. Este precisa inclinar-se profundamente pois a diferença de dimensões entre um e outro chegou a fazer-se muito grande em virtude de empequenecimento do homem. "Que é o que ainda queres saber?" pergunta o sentinela. "És incontentável". "Dize-me", diz o homem, "se todos desejam entrar na lei, como se explica que em tantos anos, ninguém, além de mim, tenha pretendido fazê-lo?". O guarda percebe que o homem está já às portas da morte, de modo que para alcançar o seu ouvido moribundo ruge sobre ele: "Ninguém senão tu podia entrar aqui pois esta entrada estava destinada apenas para ti. Agora eu me vou e a fecho".

Texto: Franz Kafka, em "O Processo", Cap. IX - Na Catedral.
Arte: Escher


cebalbys wrote on Sep 15, '07
Essa passagem de "O Processo" é especialmente amarga...
Há pouco tempo assisti a versão do livro filmada por Orson Welles. Está em DVD, e vale a pena assistir... A cena do Homem e o Sentinela estão incluidos como grande mensagem.
davidfmendes wrote on Sep 16, '07
Eu estava procurando esse texto desde a noite de encerramento da Flip, quando ele foi lido pela escritora Veronica Stigger. Eu já tinha lido antes, mas não lembrava a origem. Vasculhei meus Kafkas na estante, achando que fosse um conto. Não achei e fiquei frustradíssimo. Não lembrava que era parte do Processo. Obrigado por postá-lo e assim corrigir minha memória. :)
amaccord wrote on Sep 17, '07
Bem, eu acho que essa passagem tem várias interpretações.
Não a considero nada amarga, na verdade.

Eu também estive na FLIP deste ano e ouvi a Veronica ler o conto!
Você deve ter perdido o detalhe: ela fez comentários, inclusive, sobre o capítulo que traz o texto. Parece que era mesmo um conto avulso, mas que no livro foi inserido no livro pela voz do sacerdote...
cebalbys wrote on Sep 17, '07
Talvez o adjetivo "amargo" não seja o melhor. Na verdade, o livro todo respira o sentimento de impotência. Todos parecem ter acesso ao sistema, menos Josef K. Ele é um cidadão correto, mas está "por fora", na verdade não tem nem mesmo direitos. Apenas, lhe é permitido existir. A Lei existe, e existe para Ele... mas não se pratica. No filme de Welles, a rebelião final de Josef K é vista pelo sistema como anárquica... e ele é simplesmente eliminado. [Historicamente corresponde à autoconsciência de um judeu em Praga, mas a idéia é extensível muito além disso. A obra escapa do Criador e se espalha pelo mundo...].
alysonlacerda wrote on Nov 26, '09
Gravei um curta baseado neste conto - http://www.vimeo.com/4941750 -. Lá, também, há acesso ao link do roteiro onde vocês poderão encontrar meu e-mail, caso queiram debater o vídeo. Abraço.
07081944 wrote on Dec 15, '09
Li esse conto quando, uma professora de Filosofia distribuiu para uma 3ªserie do ensino médio,desde então ele não me saiu da cabeça fiquei realmente impressionada com a interpretação que dei a ele.Procurei rele-lo desde então,faz mais ou menos uns 15 anos , e só agora o encontrei.Gostaria de ler algumas interpretações destes sabios em literatura para maior absorvê-lo
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Aline Mirilli Mac Cord

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